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Cotas são compensação histórica e não esmola

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Hoje cedo vi um link no perfil da minha amiga Sueli Feliziani do texto Querida “patroa” branca no site Geledés, sobre as fotos de uma atriz e seus filhos loiros na praia com suas empregadas negras. (Ok. Eu não acho que a atriz seja, essencialmente, racista: ela é uma reprodutora do racismo inerente à sua etnia branca, e como tal, não enxerga além da “ponta do iceberg” do que pode ser igualdade étnica e então, do alto da sua branquisse rica, nem percebeu a simbologia que suas fotos carregam. Mas acho que ela deve ter levado seu merecido chacoalhão, e junto com ele, a exposição que as fotos ganharam, serve também para chacoalhar diversas outras cabeças amortecidas acerca deste tema ainda tão longe de ser resolvido, infelizmente.).

O texto é ótimo. Já alguns comentários me deixaram incomodada. Não falta gente pra dizer coisas tipo o que disse uma das meninas que comentaram o post: “A forma como algumas pessoas negras tratam o racismo hoje em dia é a mesma que as feministas rads tratam o feminismo: com agressividade e problematização extrema.”.

Gente, carregar uma multidão de pessoas em porão de navios, sem a mínima condição de higiene, sem um mínimo de tratamento digno, pra usar essas pessoas como escravos, como se fossem objetos para o uso/usofruto, não é algo EXTREMAMENTE AGRESSIVO e PROBLEMÁTICO (bem como as atrocidades cometidas por homens, devido ao machismo, que justifica muito o posicionamento de muitas rads)?! Mas a reação tem de ser leve, moderada e simpática?! (saliento isso pra vocês, novamente, pq eu tbm já comprei esses discursos prontos quando tudo o que eu via era apenas uma pequena parte do problema, tanto étnico quanto no tocante a desigualdade entre gêneros e etc).

Sim. Eu acredito que, muitas vezes, uma conversa séria e ponderada acerca de temas polêmicos é uma boa maneira de procurar suas soluções. Mas o que precisamos é perceber que o debate moderado é quase sempre suscitado pelo grito extremado de alguém acerca de determinado tema. E, sendo assim, essas reações e opiniões “exageradas” são de visceral importância na profunda problematização de graves problemas sociais/culturais, antes, naturalizados e socialmente aceitos.

E após anos debatendo, revi meu parecer sobre Cotas. Seja para mulheres na Política ou no Mercado de Trabalho, seja para negros e afro-descendentes nas Universidades: Cotas são uma forma de compensação histórica, moça, e não de dizer que o negro não tem capacidade. É uma forma da sociedade compensar pelo que o negro sofreu e pelo que lhe foi negado.

Sabiam que tenho amigos bisnetos de escravos, cujas avós e mães foram faxineiras e empregadas domésticas por terem sido filhas e netas de escravas “libertas” (jogadas na marginalidade brasileira)? É, pessoal, Escravatura foi “ontem”, em termos históricos…

Para quem vocês acham que é mais fácil e confortável a dedicação aos estudos superiores? Ao branquinho que cresceu estudando em escola particular sem nunca faltar comida na mesa, ou para o negro da escola pública filho de empregada doméstica, cuja mesa não era tão farta e o acesso à informação era parco e feito com muito esforço? Não é “mimimi”: é lógica simples.

Quantos professores negros temos no Ensino Fundamental no Brasil? Bem menos do que brancos, embora nossa população seja majoritariamente afro-descendente. Eu tive uma. E no Ensino Médio, quantos professores negros tivemos? Certamente menos do que no Fundamental, caso vocês tenham tido algum… Eu não tive nenhum. E professores universitários negros? Quantos vocês tiveram? Quantos há em nosso País? Aí o número decresce de forma entristecedoramente gritante…

Pensem nisso antes de reproduzir o discurso branco que, caso tu sejas branca, está claro porque o reproduzes – nem preciso dizer mais nada… – ou, caso sejas negra, talvez o tenhas adotado como forma de pensar não estar se inferiorizando. Eu também já repeti essa ladainha de que “cota sugere que o negro não tem a mesma capacidade e blábláblá”, mas não é NADA disso: ter a mesma capacidade é BEM diferente de ter a mesma facilidade de acesso, e cotas são facilitar o acesso para que se tenha a chance de demonstrar sua capacidade. Mais pessoas negras nas Universidades colocarão mais profissionais negros capacitados em nosso Mercado de Trabalho. E isso diminuirá, gradativamente, nossa visão “branca” do mundo executivo do mundo dos negócios e a visão “negra” da trabalhadora doméstica e trabalhadores dos mais variados tipos de sub-emprego no Brasil. Essa imagem PRECISA ser mudada.

Luta por mais direitos pro povo da tua etnia/gênero ou qual seja o grupo alvo de preconceito ao qual pertenças, e não por menos.

Tem razão quem diz que todos devem ter o mesmo direito, que pessoas não devem receber tratamento diferente com base em sua cor, gênero, crença, etc. E quando alguém está em desvantagem, a forma de dar esse “direito igual” para este alguém é lhe compensando pela desvantagem que possui. E as Cotas foi uma das formas encontradas para buscar essa igualdade. 😉



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Publicado por em 6 de agosto de 2015. Arquivoado em Destaque,Reflexão. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0. You can leave a response or trackback to this entry

2 Respostas para Cotas são compensação histórica e não esmola

  1. Bruna

    5 de outubro de 2015 at 20:20

    Eu acho que se for pra dar cotas a quem tem menos facilidade de acesso tudo bem, mas só aos negros não. Conheço muitas pessoas brancas que estudam em escola pública e deveriam ter a mesma oportunidade quanto os negros.

  2. Thiago

    22 de dezembro de 2015 at 22:40

    Isto é um problema sério. A constituição é clara quando cita que temos que tratar os desiguais de forma desigual. Então as cotas é uma maneira de atender a este quesito.
    Belo post, parabéns.
    😀

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