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Sobre Deus e a cura: quando a lucidez salva uma vida

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Aengus_apos_segunda_cirurgia

Meu filho Aengus, 3° dia de vida, após a 2ª cirurgia, já bonitão, perto do que estava antes!

Meu filho nasceu com gastrosquise, doença rara na qual o intestino se forma do lado de fora do corpo do feto.

Ao nascer, tinha poucas chances de sobrevivência, que foram ainda drasticamente diminuídas pelo sofrimento fetal ocasionado pela demora em me atenderem na hora do parto, o que o fez engolir mecônio (fezes do recém nascido) e ficar em isolamento neonatal com pneumonia dupla (o mecônio queima os pulmões do bebê, ao ser aspirado).

A primeira cirurgia para inserir as alças intestinais em seu abdômen foi ao nascer. Enfiaram tudo pra dentro e fecharam seu abdômen novamente. Depois desta 1ª cirurgia, que não foi muito bem sucedida, ele ficou com compressão renal, o que o impedia de urinar e fez c/ que toda toxina que seria eliminada na urina se espalhasse por sua corrente sanguínea, o deixando totalmente edemaciado (inchado) e à beira da morte.

Durante este primeiro dia inteiro (que pareceu uma eternidade) conheci duas outras crianças nascidas com o mesmo problema. Suas mães, ao contrário de mim, rezavam, incessantemente, ao lado das incubadoras de seus bebês tão moribundos quanto o meu. Lembro de uma delas ter vindo até mim e ter me dito “Tu tens de rezar, mãe! Porque nessa hora, SÓ DEUS!”.

Eu, que desde criança sempre tinha tido grandes dificuldades em crer no “Divino”, olhei para Deborah Blank (minha amiga e na época doutoranda em Medicina no Hospital de Clínicas e, por coincidência, encarregada do caso do meu filho, o Aengus, em sua internação hospitalar) e disse: “O que eu faço em uma hora dessas? Eu, que só acredito em vocês, médicos! Só posso te pedir que façam o que puderem para salvar meu filho!”.

Respondi, com educação, para a mãe crente, dizendo que não acreditava nessas coisas. E ela disse, imperativamente: “Depois não diz que não te avisaram! Deus está te dando um teste e ainda assim tu estás o recusando! Tem gente aqui, te trazendo A Palavra e tu a estás recusando!”.

Confesso que, naquele momento de total desespero, cheguei a pensar: “Será?! Será que isso é um teste ou um castigo divino e eu sou muito coisa ruim e por isso não consigo acreditar nisso?”.

Naquele dia, no fim da tarde, meu filho foi quem determinou a quantidade de enfermeiros que ficariam no plantão, pois ele era a criança mais grave na UTI Neonatal. A ordem era algo do tipo “Se o recém nascido de Paula Berlowitz AINDA estiver vivo até as 19h, dobra o plantão!”.

Então sentei, apavorada, desolada, imensamente triste, cor uma dor indescritível no peito, ao lado da incubadora onde meu filho estava todo entubado, com acessos intra-venosos espetados em suas pequenas veias, levando para dentro de seu frágil corpinho o conteúdo de 7 bombas de medicação contínua – inclusive MORFINA!! – o rostinho “escorrendo” para o lado, assentando no travesseirinho de tããão inchado que ele estava, todo arroxeado, com a testinha franzida em expressão de sofrimento. Uma cena de se rasgar chorando.

No dia seguinte, os médicos disseram que meu filho estava morrendo e que a única esperança seria levá-lo, novamente, para o bloco cirúrgico. Eu deveria, para isso, assinar um termo afirmando estar de acordo com a cirurgia e que estava ciente de que ela era de alto risco, uma vez que duas anestesias gerais em menos de 48 horas de vida, é uma carga bastante pesada para o coraçãozinho de um recém nascido, e ele poderia ficar na mesa de operação.

Naquele momento me desesperei! Meu filho estava prestes a morrer e eu ainda não havia sequer encostado nele! Não sabia sequer qual era a textura da pele daquele serzinho que durante 9 meses interagiu comigo! Não podia pegá-lo no colo! Não podia tirá-lo do lugar.

Quando ele nasceu, estava tão mal que foi enrolado em uma toalha-fralda, mostrado para mim, rapidamente, no colo da enfermeira, e levado às pressas para o bloco cirúrgico, onde só aguardava a cirurgia de outro bebê terminar, para ter o início da sua. E depois dela, já saiu do bloco cirúrgico sedado e entubado, dentro da incubadora.

É… Não é o sonho de parto de nenhuma mãe. No quarto, eu chorava muito. E via nos corredores todas aquelas mães com seus bebezinhos. E o meu lá, no andar de cima, preso dentro de uma incubadora, longe de mim, sozinho, indefeso, sofrendo… Meus peitos inchados de tanto leite e ele sem poder mamar. A sensação era de querer morrer!

Eu, que só acredito nos seres humanos e na medicina, na hora de salvar alguém, assinei o raio do papel. E voltei para o lado da incubadora, bem perdida, desolada… E ali fiquei olhando meu bebezinho ser manipulado, com grande correria em torno dele, pois estava com os batimentos cardíacos tão irregulares com toda aquela medicação que o mantinha vivo circulando, que não poderia subir para o Bloco Cirúrgico naquele estado, senão morreria, como me havia sido informado pelos médicos.

Fiquei, dali em diante, feito cão de guarda, ao lado da sua incubadora, atenta a cada movimento dos médicos e enfermeiros, a cada tubo que ficava preso, por acidente, quando um deles fechava a porta da incuba, querendo saber de cada procedimento, avisando quando qualquer medicação das bombas acabavam, caso alguém não visse logo. Neurose TOTAL! Mas naquele momento qualquer pequeno detalhe poderia ser o que determinaria sua vida ou morte. E eu o queria vivo!

Lembro de ouvir “Estamos perdendo ele!!!” de alguém da Equipe médica ali presente. Até aquele momento eu não sabia que eu podia tocá-lo. Ninguém tinha me avisado e eu só assistia aquele entra e sai de médicos e enfermeiros que a cada momento pareciam com cara de mais preocupados.

Então perguntei para um enfermeiro: “Eu sei que não posso pegá-lo, mas poderia tocar nele PELO MENOS UMA VEZ, já que ele está morrendo?! Não quero ir embora com a frustração de ter esperado 9 meses para nunca ter nem tocado nele!”. O enfermeiro disse que sim, que eu deveria, que era muito importante para o bebê e se desculpou por ninguém ter me orientado, antes, aquele respeito. Então, ele me orientou sobre como lavar as mãos e aplicar o álcool gel 70%.

E assim eu fiz. E coloquei minhas mãos pelos buracos da incubadora para, enfim, tocar no meu filhotinho. Desviei dos fios do acesso que espetava seu braço e coloquei, vagarosamente, minha mão por debaixo da sua cabecinha, cuidando para não deslocar o tubo do oxigênio que adentrava sua boca, até a entrada de seus pulmões. A outra mão, coloquei sobre o peitinho dele e iniciei leve massagem. Neste mesmo momento, ele desfranziu a testa deu um profundo suspiro. Foi quase como um “É ela! Ela ainda existe! E está aqui comigo!”, no meio de tubos, agulhas, remédios, e toda aquela dor e desconforto que ele estava sentindo.

Foi inacreditável, mas segundos depois de eu ter começado a tocá-lo, enquanto eu alisava seu peito, os batimentos cardíacos foram diminuindo, regularizando, até normalizarem. Houve comemoração da Equipe Médica na UTI Neonatal! E assim ele pode subir para o Bloco Cirúrgico! =D

Foram 4 horas de cirurgia. Eternas, agoniantes, enlouquecedoras…

E eis que o cirurgião, Dr. Nicolino, surge na porta do Bloco, me procura com o olhar ao longo da sala de espera e quando me avista, abre um sorriso, e faz um sinal de “Tudo certo!”, com os 2 polegares em riste!

Nossa história não acabou aí. Se fosse um filme, teria acabado! Foram mais 5 longos meses de internação. Na 1ª cirurgia, o intestino, pelo contato com o ar, havia sido infectado e começara a necrosar dentro do corpo do meu filho. Cinco centímetros de intestino delgado foram removidos. E ele saiu desta cirurgia ileostomizado/colostomizado (eu trocava bolsinhas de ostomia, ao invés de fraldas :/ ) e com uma sonda nasogástrica.

Aos 2 meses de vida, fecharam as ostomias do Aengus de volta. Porém, por mais um mês, o leite não fazia o tráfego até o intestino grosso, corretamente, então não foram poucos os seus episódios de vômito fecaloide, nos quais vomitava inclusive a sonda. E até os 5 meses era altamente intolerante à lactose e o leite que consumia custava R$970,00 a lata. Ele tomava 3 latas por semana.

Consegui ir embora do HCPA quando ele estava a quase com 6 meses, tomando hidrolisado protéico de soja, e depois o Nan Soy. Hoje ele tem uma cicatriz – um risco horizontal de uns 7 cm, no lugar do umbigo. Em 21 de julho completará 9 anos de vida.

O mais irônico de tudo isso é que o filho daquela senhora crente que foi desaforada comigo por eu ser atéia, morreu. Morreu com poucos dias de vida, enquanto eu ainda estava ocupada com o pós-cirúrgico do Aengus.

Foi triste assistir o desespero que ela ficou… Poderia ter sido o meu, se eu estivesse tomada por meu desespero, buscando fora da realidade a cura para o meu filho, se eu não tivesse ficado atenta ao meu bebê, se eu não tivesse tocado nele e o feito se sentir amado, apesar de toda a dor na qual nos encontrávamos.

Até achei que, coerentemente à própria crença, ela não deveria ter ficado tão desesperada, pois pelos seus dogmas, se sua criança morreu, foi porque “Deus quis assim”.

Médicos, medicina e amor de mãe salvaram a vida do meu filho. E nada há de mais real que isso.

Eternamente grata a Equipe dos Doutores Miura, Ariel, Nicolino, a minha querida Deborah Blank e Clarissa Gutierres, e tantos outros nomes e rostos que trabalharam incessantemente por quase meio ano de suas vidas em prol da vida do meu filho e de tantas outras crianças que nascem todos os dias no Hospital de Clínicas de Porto Alegre!!!

Graças a vocês! <3

Paula_Berlowitz_e_Aengus (1)

E esse é o Aengus hoje em dia! =D

 

p.s. Nunca fiz campanhas arrecadando dinheiro, usando a imagem de meu filho para comover as pessoas! É a 1ª vez que trago a público uma imagem dele, no período pós parto. Faço isso apenas para ILUMINAR as pessoas, e fazê-las entender que “Só Deus” é algo inventado para manipular as pessoas. Podemos ser felizes sendo ateus. Podemos ser curados sendo ateus. E crença sobrenatural não garante a sobrevivência de ninguém. Nos amamos, sendo ateus. Sou atéia, meu companheiro é ateu, meu pai e avô eram ateus e educo meus filhos de forma amorosa, livre, honesta e íntegra, com base nos preceitos do Humanismo e sem crenças sobrenaturais.



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Publicado por em 3 de abril de 2013. Arquivoado em Destaque,Lucidez,Notícias. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0. You can leave a response or trackback to this entry

17 Respostas para Sobre Deus e a cura: quando a lucidez salva uma vida

  1. Jessika Andras

    3 de abril de 2013 at 17:04

    Lembro quando tu me contou toda essa complicação que o Aengus teve ao nascer, que barra hein! :/
    Parabéns por expor sua história e pela maneira que vejo que você educa os pequenos! Te admiro demais! 🙂

  2. Daniela

    3 de abril de 2013 at 19:23

    Não sigo nenhum ritual religioso, mas sou uma pessoa religiosa. Acredito no turbilhão de energias, visíveis e invisíveis, que estão ao nosso redor. Acredito no poder da palavra, do pensamento e da ação humana. Acredito na ciência, que me oferece coisas que não entendo. Acredito que “existe muito mais entre o céu e a terra do que explica nossa vã filosofia”…

    Acredito, principalmente, no amor. Puro, simples e incondicional.

    Muitas pessoas chamam de Deus algumas dessas coisas em que acredito, eu sigo Kant e penso que nada disso se explica com palavras… Mas diante das antinomias da razão, vamos vivendo… tua história, Paula, me faz acreditar mais ainda em tudo que acredito… me faz te admirar mais e aprender mais contigo.

  3. Rayzen

    4 de abril de 2013 at 1:23

    Essa mulher nunca parou pra pensar que o fato de darem mais atenção ao filho dela, acabaram não dando a atenção devida a outra criança que acabou falecendo?

  4. Paula Berlowitz

    4 de abril de 2013 at 1:59

    Não, Rayzen, pois cada criança era cuidada por uma Equipe distinta de médicos. Não houve negligência com o filho dela. O HCPA é uma das melhores UTI Neonatal que temos aqui no Sul. Vem gente de todo o país para lá!

  5. Urbano

    4 de abril de 2013 at 8:31

    Parabéns por compartilhar essa parte da vida, Paula. Uma situação extrema, angustiante e poderosa. E exemplo de forca e lucidez rara num mundo tão apegado à defesa de fantasias em troca de sombras de conforto.

    Forte abs pra vc e sua família!

  6. Fabio Kenji

    13 de maio de 2013 at 17:26

    Parabéns Paula, gostei 😀

  7. Paula Berlowitz

    13 de maio de 2013 at 18:01

    Agradeço o comentário, Urbano!

    E lamento pela demora em aprová-lo e respondê-lo. Ele tinha ficado no “limbo” aqui – eu não tinha visto ele, em meio a outros! Sorry!

    Bjs.

  8. Paula Berlowitz

    13 de maio de 2013 at 18:02

    Thx, babe! =)

  9. Fabio

    11 de junho de 2013 at 16:58

    Que história tremenda, Paula! E realmente, as pessoas ficam concentradas no sobrenatural e esquecem daquilo que é prático.
    Eu acho tão triste quando as crianças nascem com problemas, é uma coisa muito dramática, mas é mais uma prova de que não há arquiteto algum nisso, é só evolução, caótica, cheia de acidentes, imperfeita.
    E é a humanidade que vai superando a natureza, vencendo a morte, melhorando sua própria existência, sem nenhum sentido que não o de ser feliz.

  10. Paula Berlowitz

    12 de junho de 2013 at 0:37

    Agradeço teu comentário, Fabio!

    Exatamente! E eu, particularmente, acho que grande parte da beleza da vida está justamente nesse caos que citaste: no acaso, na imperfeição. Isso é SER humano. =)

    E á propósito, já disse, porém, repito: adoro teus textos! Sempre lúcidos, ácidos e muito bem escritos! Sou fã!

    Um beijo, guri!

  11. Felipe Harper

    17 de junho de 2013 at 14:10

    Quando retornei ao pré natal me pediram pra fazer a ultrassonografia morfológica e foi quando descobri que meu filho tinha uma má formação chamada GASTROSQUISE. Nossa pra mim foi um choque, levei o exame no meu médico e ele me disse para não ficar preocupada, pois após o nascimento teria como fazer a cirurgia de correção, e ainda me disse para não ficar pesquisando na internet, pois acharia fotos que não gostaria. Então não deu outra, chegando em casa fui direto a internet e fiquei muito triste ao ver aquelas imagens e pensando que meu filho poderia nascer assim.

  12. Fernando

    6 de julho de 2013 at 12:25

    Não tenho grandes comentarios a fazer, apenas te digo que chorei ao ler tudo isso, não há nada mais belo que o amor, chorei mesmo. parabéns

  13. Paula Berlowitz

    6 de julho de 2013 at 20:09

    Agradeço, Fernando. <3

  14. Clarissa

    24 de junho de 2014 at 23:09

    Paula queridona, acho lindo demais ver o Aengus crescido! Saúde para vocês!

  15. Paula Berlowitz

    24 de junho de 2014 at 23:39

    Valeu, Doctor Clarissa!!!

    Para as leitoras que passarem por aqui e virem o comment da Clarissa, saibam que ela foi uma das médicas – na época, Doutoranda – responsáveis pela sobrevivência do meu filho! <3 Minhas "deusas"! 😉

  16. Priscila

    4 de outubro de 2014 at 13:41

    Oi Paula! Emocionante o que te aconteceu e ao teu filho. Trabalho no HCPA desde 2008 e já trabalhei na pediatria por onde teu bebê deve ter passado ao sair do ctineo e para quem não acredita, não existe negligência neste hospital. São equipes imensas cuidando do mesmo paciente, se um se descuida o outro corrige. Equipes multidisciplinares tem atenção total com cada pessoa que interna ali e como dizemos (mesmo os médicos achando que é responsabilidade demais afirmar isso) “ao assinar a internação no HCPA você só morre se for muito teimoso, mais que a gente!” Porque tudo o que é humanamente possível é realizado. Com o carinho da família então…
    O mérito maior não foi do hospital, a equipe fez todo o possível, mas foi o teu amor de mãe que decidiu a vontade do teu filho de lutar. Parabéns por te manter forte, por ser mãe, por entender que nesta hora teu filho precisava mais de carinho do que você, mesmo com toda a angustia que sentias! Como eu dizia na pediatria para as mães que rezavam sem parar: “Até Jesus teve mãe, e ela não deixou de ser carinhosa até o fim, mesmo sofrendo, seu filho era mais importante… Respira fundo e segue em frente! A guerra não acabou.” Beijos teacher!

  17. Marcela

    15 de julho de 2015 at 22:20

    Bah Paula.. Não sabia que vocês tinham enfrentado tudo isso!!!! Chorei ao ler teu relato! Sempre te admirei muito, mas , depois de ler o texto percebi que és mais forte do que eu imaginava!!

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