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Violência Doméstica: um problema de Saúde Pública mais comum do que se imagina

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Uma de minhas tias-avós é surda e tem problemas mentaisA surdez começou no dia em que, durante uma das surras que costumava levar de seu pai – meu bisavô – ele pisoteou sua cabeça, pressionando-a com força contra o chão, até o rompimento do seu tímpano. Os problemas mentais, creio que nem preciso dizer de onde vieram. Fora os espancamentos, dizem na família que ele também abusava sexualmente dela. Minha tia-avó nasceu normal e foi assim até os seus 15 anos. Meu bisavô a deixou surda e louca.

Minha melhor amiga da adolescência dormia de porta chaveada. O que sempre me pareceu estranho, pois em minha casa ninguém chaveava portas, sem ser as da rua. No dia que resolvi perguntar porquê ela dormia de porta chaveada, ela me contou que quando deixava a porta aberta, seu irmão mais velho vinha mexer nela enquanto ela dormia. Ela já havia acordado algumas vezes nesta situação. Contou para a mãe. A mãe não acreditou. Ela, então, passou a dormir trancada pra se proteger, já que a mãe preferiu fechar os olhos. Nós tínhamos 14 anos. O irmão dela tinha 17.

Uma outra amiga minha, aos 11 anos, foi molestada, repetidas vezes, pelo padrasto. Também contou pra mãe. A mãe também não acreditou. Ah, e este padrasto também espancava esta mãe em frente à minha amiga. Anos depois, cansada de apanhar, a mãe da minha amiga se separou dele. Não preciso dizer que as principais marcas que ele deixou foram na minha amiga, e não em sua mãe.

E olha: estou citando APENAS os casos de violência FAMILIAR! Nem estou citando a amiga que, aos 4 foi molestada por um vizinho; uma outra que aos 9 aos era abusava por um amigo de 18 anos do irmão dela; o homem que tentou estuprar minha mãe, em seu estúdio fotográfico, ao chamá-la para uma entrevista de emprego, aos seus vinte e poucos anos; o homem que EU, aos 17 anos, levei para a Delegacia, após uma luta que o deixou de camisa toda rasgada no Centro de Porto Alegre, depois de ele dedilhar minha nádega (e olha que eu estava de calça Jeans! Nem estava com “roupa de vadia”, como muitos gostam de rotular…) e muitos outros casos de violência de gênero ocorridos só dentro do MEU contexto que se eu fosse descrever aqui, vocês iriam cansar de ler!

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Então, vou me ater aos casos de violência doméstica.

Lá pelos meus 20 anos, eu tinha uma colega de Academia que me contou que era agredida fisicamente pelo namorado. Eu, com meu feminismo, perguntei por que ela não terminava o relacionamento. Ela dizia que gostava muito dele, pois ele era “muito bom para a filha dela” – de quem ele não era o pai. E que ele só fazia isso porque sentia muito ciúmes. Que ela achava ruim. Que pensava em terminar. Mas que ele então pedia desculpasdizia que nunca mais ia fazer e a enchia de presentes. E durante um tempo era “um amor de pessoa”. E parecia que tudo tinha, de fato, mudado. Então lá um dia quando o ônibus dela pegasse um engarrafamento e chegasse mais tarde que o normal… Pronto! Tudo começava de novo: “Onde é que tu estavas? Com quem? Vagabunda! Tu tava com “macho” por aí?” e Blá, blá, blá… E eu insistia: “Termina! Tá louca! Se um cara encostasse um dedo em mim, não ia me ver nunca mais na vida!” e blá, blá, blá (o “blá, blá, blá” de quem POR SORTE – por que não há outro motivo –  nunca vivenciou esta situação). O tal namorado era um cara lindo, “filhinho de papai”, sem grandes dificuldades na vida.

Dois anos depois uma amiga minha, vizinha de rua, na época estudante de psicologia – hoje é formada- me contou que tinha namorado com um homem que no início era o maior dos românticos. Depois de alguns meses, quando estavam praticamente morando juntos, qualquer coisa que ela fizesse e ele não gostasse – e isso inclui um prato de comida que não fosse de seu agrado – ele a “quebrava”, como ela falou. E nem foi exagero o termo: no “Grand Finale”, antes da separação, ele quebrou duas costelas dela com uma “voadora”.  O moço em questão era um médico, muito bem sucedido, residente na Zona Nobre de Porto Alegre.

Na mesma época, chegou a minha vez: Um rapaz da vizinhança – eu morava no Centro, com meu pai – me convidava já há meses, insistentemente, para sair. Eu nunca aceitava. Achava ele um tanto estranho. Mas diversas pessoas me diziam que ele estava sempre perguntando por mim. Eu, envaidecida, aceitei o convite. Não pretendia nada sério. Só conhecê-lo melhor. E justo naqueles dias, me pai adoeceu e baixou hospital. Durante as três semanas da doença do meu pai, o tal vizinho não saiu do meu lado. Fazia compras pra mim, sem que eu pedisse, e aparecia em minha casa, trazia presentes, me enchia de elogios, era super gentil. Hoje, penso e acho psicótico. Na época, fragilizada pela doença de meu pai, achei “Lindo!”. Meu pai faleceu e eu fiquei inconsolável. Na carência da falta paterna, buscando alívio para a dor da minha perda, fui aceitando aquele cuidado, aquela presença um tanto quanto obsessiva, mas que na época, me confortava. Me apeguei. Casei um ano depois.

mulher_agredida

E o inferno começou: na 1ª vez, tínhamos saído, bebido um pouco além da conta – tentei usar isso pra justificar pra mim mesma o que acontecera depois – e ele teve uma crise de ciúmes doentia por causa de um amigo meu. Irritada com as acusações, respondi mal, fui “desaforada”. E pela primeira vez em minha vida, fui agredida, fisicamente, por um homem (psicológica e moralmente é tão frequente que  nem teria como relatar). Com raiva e vergonha, liguei para o 190 e uma viatura veio me atender. Ouvi do policial homem que veio me atender – eram dois homens – “A senhora acha que foi agredida? Nós acabamos levar uma que levou 9 pontos no rosto e a senhora nos chamou por causa de uns tapinhas?”Fiquei ofendida, mas constrangida – como se eu os tivesse tirado de importantes afazeres por um egoísmo meu. Isso foi antes da Lei Maria da Penha.

Deveria ter acabado ali. Mas não acabou. O segundo policial disse “Ah, isso é normal. Eu e minha mulher também passamos por essa “fase” quando novos. Depois a gente fica mais velho e passa. Isso aí é o fogo da Juventude!”, e conversou looongamente conosco, buscando nos reconciliar. O brigadiano fez eu me sentir fazendo uma “tempestade em copo d’água”. No dia seguinte, o“golpe baixo” – o pedido de perdão de joelhos, os infindáveis beijos nas mãos, o abraço apertado e as frases de arrependimento: “Como eu pude fazer isso! Não sei onde eu estava com a cabeça. Me perdoa. Eu JURO que isso NUNCA mais vai acontecer!”.

E eu, martirizada, confusa, magoada, apaixonada, PERDOEI. Assinei, ali, o que poderia ter sido minha sentença de morte. Tivemos filhos. O mais velho assistiu alguns episódios daquele absurdo, e tem sequelas disso até hoje. E levei alguns anos a conseguir interromper o ciclo padrão da Violência Doméstica (explicado em vídeos da Rede Social Maria da Penha) que é o Aumento da Tensão no Relacionamento+EXPLOSÃO DA TENSÃO+PEDIDO DE PERDÃO+RECONCILIAÇÃO AMOROSA (“Lua de Mel”), que aconteceu com um intervalo mais ou menos semestral – tempo o suficiente para, de fato, se pensar que aquilo NUNCA MAIS iria acontecer. Até que começou a ficar mais frequente e mais grave. Até que eu comecei a ter medo. E raiva. E nojo.

Certo dia, enquanto eu vestia meu filho para levá-lo à Escola, com minha filha pequena no meu colo, não lembro nem porque – e os motivos pouco importam – meu ex estapeou minha cabeça, repetidas vezes, com força, que fez minha filha, na época com 2 anos, se assustar e chorar. Naquela hora pensei: “Isso tem de parar. Que tipo de mulher vou criar, assistindo isso?!”

Decidi que ele iria embora dali. E tomei essa decisão mais firmemente no dia em que meu filho, na época com 5 anos, durante uma das discussões, empurrou o pai, dizendo: “Para de fazer isso com a minha mãe! Por que tu não vais embora desta casa?!”, sendo atirado ao chão, ao fazer isso: ao interceder por mim. Agora já não era mais só comigo. E aí eu “acordei”. Naquela noite, houve o Flagrante da Lei Maria da Penha – e eu levei 3 pontos na testa. Morrendo de vergonha, fui de viatura até o HPS e depois para a Delegacia da Mulher. Lá elas me atenderam super bem – embora algumas delas tenham sido rudes.

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Mas até esta rudeza talvez me tenha sido útil: Nunca esqueci de uma delas que me perguntou: “E tu dormes com o teu algoz?”. Corei e me doeu o estômago. Aquele constrangimento causado por ela, sim, foi benéfico. Me ajudou a ACORDAR e não a acatar a situação como se fosse NORMAL, como fez o brigadiano, anos antes.

Jamais imaginei, em minha vida, que algum dia eu passaria por isso. E em minha cabeça de feminista, eu tinha CERTEZA ABSOLUTA que, SE um dia acontecesse, eu terminaria a relação na mesma hora. Mas de perto, não é tão fácil. É como o filho de pais que dão palmada: a criança fica magoada, ferida, triste, com raiva, mas ainda quer ficar com os pais, continua os amando – até porque eles não batem sem cessar: há os momentos de colo, de carinho, que faz a vítima recobrar a confiança no agressor, até a próxima agressão. Eu demorei para conseguir sair daquele ciclo macabro de amor e ódio. Mas uma amiga minha, também aqui de Porto Alegre, não saiu: foi morta com dois tiros pelo ex-cônjuge, que depois se matou. Deixaram uma filhinha.

Hoje, olhando para o passado, não consigo entender por que não dei um basta logo. Não sinto vergonha de contar. Sinto vergonha de ter ficado em silêncio por tanto tempo. Coisas que o cérebro da gente faz e a gente não consegue explicar. Então parei de tentar explicar! Resolvi virar militante anti-violência domésticapois penso que se eu, que tive acesso à informação, que não dependia financeiramente do agressor, que vivia em área urbana e central passei por isso e já foi horrível e difícil, e aconteceu e está acontecendo NESTE MOMENTO com outras mulheres de meu círculo, IMAGINEM como é para a mulher da comunidade mais carente? Imagine para a mulher que reside nas áreas periféricas da Cidade! Imagine para a mulher que depende do agressor para ter moradia, se alimentar, sustentar seus filhos! Esta mulher estará fadada a sofrer com a violência até morrer, literalmente! Seja de velhice, seja por um assassinato!

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Agora tenho um faro INCRÍVEL para reconhecer, na rua, casais que vivem em situação de violência ou crianças que vivem em lares violentos.Não foram poucas as vezes que parei mulheres no meio da rua, após vê-las saindo para o lado oposto do cônjuge, e as entreguei um cartãozinho do Escuta Lilás (tenho muitos! Carrego na bolsa!) e posso afirmar para vocês que o problema é mais frequente do que vocês imaginam! E, de fato, não existe grau de instrução, cor, crença, condição social ou financeira que defina um agressor: ele pode ser qualquer um. Pode estar em qualquer lugar.

E o problema é GRAVE! A Violência Doméstica não é um problema apenas familiar! Ela tem índices TÃO ALTOS que já se tornou um problema de Saúde Pública, de acordo com a OMS – Organização Mundial da Saúde! Uma DOENÇA SOCIAL! E ela PRECISA ACABAR!

Temos, então, primeiramente, de educar as nossa mulheres para que aprendam a não aceitar a situação de violência e a agir em sua própria defesa e de seus filhos. Por que o casamento com um agressor não será feliz. Por mais que a mulher tente continuar ela só vai protelar a separação. O que só gera mais dor, mais mágoa, mais sofrimento tanto para ela, quanto para seus filhos e para seus familiares que sabem da situação.

Em segundo lugar, precisamos conscientizar o agressor a buscar auxílio, mesmo depois da separação. Pois o agressor não agride UMA mulher: Ele agride “suas mulheres”Quase a totalidade dos homens denunciados como agressores domésticos, já agrediram outra ou outras ex-companheiras. Cito os homens por serem responsáveis por cerca de 70% dos casos de violência doméstica, mas também há mulheres agressoras.

Então, o agressor também deve entender que precisa buscar ajuda e ser estimulado a isto. A pessoa que agride deve ser reeducada! Ela PRECISA querer se reeducar. Precisa entender que tem um distúrbio e buscar o devido tratamento ou acompanhamento. E quando assim o fizer, deve encontrar um tratamento/acompanhamento disponível. Já existem, inclusive em algumas cidade do Brasil, grupos de conversa para pessoas violentas, que buscam uma regeneração. Não esqueçamos que o agressor é, na maioria das vezes, um ex-agredido em sua infância.

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Podemos NÃO CRIAR novos agressores! E devemos começar a fazer isso AGORA.



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Publicado por em 9 de outubro de 2012. Arquivoado em Família,Feminismo,Reflexão. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0. You can leave a response or trackback to this entry

2 Respostas para Violência Doméstica: um problema de Saúde Pública mais comum do que se imagina

  1. Daniela

    21 de janeiro de 2013 at 1:35

    De perto tudo é mais intenso… já estive em uma relação que terminou em agressões mútuas, por mais que tenham sido leves e sem sequelas aparentes, foi o suficiente para entender que preciso me cercar de amor próprio para ser livre para amar…

    A paz é consequência direta do respeito que oferecemos para aqueles que dividem conosco tempos e espaços nesta vida, inclusive nós mesmos.

    A tua coragem em superar um momento difícil como este e transforma-lo em aprendizagem para si, para os seus e para os outros é a inspiração que falta para mantermos a esperança mesmo em um mundo tão endurecido e desajustado como o nosso.

  2. Pingback: [BLOCKED BY STBV] RS Lilás: CEDM e SEPM promovem debate sobre a Lei Maria da Penha | CromossomoX

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