Publicado por em Destaque, Palavras

589 acessos

Alana: vida ceifada e logo esquecida, mas não por mim

1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars (1 votos, media: 5,00 de 5)
Loading ... Loading ...



“Alana” é o nome de uma música que compus há cerca de 5 anos, cuja letra escreverei logo abaixo.

Quando compus esta letra, o fiz chorando, com dor de estômago e ânsia de vômito. Triste, muito triste, como se tivesse sido comigo (em parte foi, pois o problema social de um, é na verdade problema de todos, embora a maioria das pessoas ainda não perceba isso).

A dor de Edna Ezequiel, mãe de Alana

A letra e nome da música foi uma homenagem à quem me inspirou estas palavras: a menina e estudante Alana Ezequiel, morta aos 13 anos, em uma favela do Rio de Janeiro, após ser atingida por uma bala perdida durante operação da PM - Policia Militar, enquanto levava seu irmão menor para a Escola.

Alana e seu irmão, na época, eram pouca coisa mais velhos do que meus filhos, o que me deixou ainda mais triste, pois me imaginei no lugar da mãe deles, e tentei, provavelmente, em vão, calcular o tamanho da dor que ela deveria estar sentindo: ao receber a notícia, Edna Ezequiel, a mãe de Alana chorava, urrava, babava, dizendo: “Ela não vai mais voltar. Ninguém vai me trazê-la de volta. Minha filha. Eu quero minha filha”.

Como o confronto havia sido uma troca de tiros entre traficantes e policiais e uma investigação poderia apontar culpados que ninguém desejava apontar, o caso foi, pouco a pouco sendo deixado de lado e nunca mais ouvi falar na história (diferentemente do caso do menino João Hélio, ocorrido mais ou menos na mesma época, ou da menina Isabela Nardoni, mais recente – crianças de classe média – que ganharam repercussão nacional em horário nobre durante meses. Mas isso é Brasil. Criança da favela morrer com bala perdida na cabeça é “normal”…).

Na última semana,  quando ocorreu aqui em Porto Alegre um atropelamento que vitimou o menino Gustavo Luiz da Rosa, de apenas 6 anos, que recebeu uma bonita homenagem de ciclistas em nossa cidade, e lembrei da morte de Alana, pensando que, uma vez que ele também era uma criança pobre, a morte de Gustavo, provavelmente não renderá mais do que pequenas notas em nossos grandes jornais…

Mas eu não esqueço. E nunca esqueci de Alana, nem de sua mãe e o real sofrimento que ela demonstrou ao perder a menina, mesmo sendo uma mulher que sustentava os filhos com toda a dificuldade que uma pessoa que é mulher, negra, pobre e que vive em uma zona de frequentes conflitos entre criminosos – sejam eles policiais ou traficantes – em um “país capitalista pobre como o Brasil” deve enfrentar.

Segue a letra.

Alana

“Um dia ainda vou parar pra tentar entender este cruel e vil ciclo mortal.

Mas enquanto este dia não chega, mais uma vez, aqui estou eu chorando a morte de um filho que não é meu.

Quantos sonhos estancados, sofrimentos provocados ao ceifar mais esta inocente vida? E quantas ainda serão ceifadas?

Plantando ódio ninguém, nunca, colherá amor,
Plantando guerra ninguém, nunca, colherá a Paz,
Ceifando vidas, ninguém nunca poderá sorrir.

Que desvalorização da vida humana. Nada mais impressiona, Nada mais causa indignação.

Vamos, mesmo, aceitar, passivamente, toda esta banalização?

E eis que nasce mais um miserável inocente, que mal e porcamente crescerá, sem ter muito pra escolher. Até que o destino decida se vai matar ou se vai morrer.

Plantando ódio ninguém, nunca, colherá amor,
Plantando guerra ninguém, nunca, colherá a Paz,
Ceifando vidas, ninguém nunca poderá ser, realmente, feliz.”

Que descansem em Paz, Alana e todas as outras crianças vítimas de uma Guerra Social que ainda não tem prazo para terminar…

 

Related Posts with Thumbnails

Leave a Reply