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Sexismo nas embalagens de produtos para crianças

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Recentemente, entrando e saindo de lojas de brinquedos nas quais eu procurava blocos lógicos (aquelas figuras geométricas coloridas e empilháveis) para a minha filha, me deparei com uma realidade ridícula e um tanto quanto irritante – o sexismo impresso nas embalagens dos brinquedos: jogos de tabuleiro, quebra-cabeças, jogos de encaixe e outros da categoria trazem meninos e meninas nas fotos. Carros, caminhões, dinossauros e bonecos-monstrengos: fotos de meninos. Bonecas, bebês, loucinhas, fogõezinhos, batedeirazinhas, etc, é claaaaaro, fotos de meninas!

Ou seja: a indústria já preestabelece, desde a infância, um padrão comportamental na cabeça do pobre indivíduo, enquanto ser social, afinal nossas brincadeiras de criança nada mais são do que ensaios e simulações – digamos um ‘teatrinho’ – da futura vida adulta.

E o que vemos nessas embalagens, então? Que “lugar de mulher é na cozinha”! E que cuidar de filho “é coisa de mulher”! E dirigir um carrão é coisa de homem, afinal, dizem por aí que “mulher no volante, perigo constante” – piadas que reforçam as frases anteriores e que tentam embuti-las,  implicitamente, em nossas  cabeças.N

Nunca esqueço de umas férias em São Francisco de Paula, onde eu passava os verões de minha infância com meu pai, irmão, tios e primos, quando em um belo dia,  decidimos ir à Gramado, e o Tio Paulo não estava presente – e era sempre ele que dirigia. Minha Tia Bela, então postou-se ao volante daquela, aos meus olhos de criança, gigantesca F1000 (ou era uma D20?). Me doeu o estômago: me senti tão insegura frente à aparente fragilidade da Tia, por trás daquela direção, que fiquei em dúvida se ainda queria ir junto. Meio sem-saída, visto que todos iriam, acabei indo. E pouco a pouco fui relaxando e acabei até achando melhor: a Tia não cantava pneus, não tirava fininho dos outros carros, nem acelerava no sinal amarelo para não perder a vez. Além do mais, também não gritava palavrões aos motoristas dos outros carros quando estes agiam de forma semelhante. Ali descobri que a tal maior ‘competência’ masculina à direção era, na verdade, a mais pura imprudência! E dali em diante, só queria andar de carro se a Tia fosse dirigir!).

Então, não é de se estranhar que, mesmo após a revolução sexual dos anos 60 e a pesada invasão feminina nos mais variados setores da sociedade, ainda paire sobre a aura feminina a maior porcentagem de responsabilidade com as tarefas domésticas e com o cuidado da prole. Aí ouvimos comentários, a princípio muito louváveis sobre determinado bom pai: “Fulano AJUDA muito a Fulana em casa e com as crianças!”. Diga-se de passagem, nos dias de hoje, é bem provável que a tal “Fulana” trabalhe fora e tenha rendimentos equiparados aos do tal “Fulano”! Então, por que cargas d’água ela é “ajudada” pelo pai dos próprios filhos?? Não tem ele a mesma obrigação que ela com as crianças e com a casa? E ela já não deu uma baita ajuda carregando a cria por nove meses, sem que ele precisasse fazer coisa alguma, sem ser o ‘trabalho’ inicial?

Não que eu ache que os papéis devessem se inverter, nem que mulher não deva mais se aproximar da porta da cozinha: longe de mim ser feminista! Homens e mulheres são diferentes, sim, não só no que se refere aos órgãos reprodutores, e isto já é biologicamente constatado, e salve estas diferenças! E eu mesma sou piloto-de-fogão de carteirinha! Mas faço porque gosto, não porque fui condicionada a isto. Acho, mesmo, uma arte cuidar de quem gostamos e, uma vez que a mulher é naturalmente nutriz, nada melhor para os filhos do que a famosa ‘comidinha da mamãe’. Mas depois de feito o banquete, bem que o homem da casa pode dar um jeitinho na louça, né?!Em outras épocas, quando o homem era o supridor e a mulher ficava em casa, tudo bem, era uma divisão de tarefas: o homem sustentava a casa e a mulher, por sua vez, cuidava dela.

Mas os tempos são outros e as tarefas já não estão sendo tããão bem divididas: com essa ladainha de tarefa doméstica ser coisa de mulher, se a mulher permitir, acabará sobrecarregada e vai faltar tempo é pra quem? Pra ela, mesma, é óbvio! E assim não dá pra ser feliz!

(Ah, e lembrei agora dos extintos -ainda bem- ‘cigarrinhos de chocolate’, que por sinal traziam na foto da embalagem dois meninos (um negro e um branco -um vício democrático), afinal fumar era coisa de homem (ou de mulher que ‘não era flor’). Quantos fumantes podem ter sido inicialmente inspirados pelos malditos cigarrinhos de chocolate?! Acho que em vez de processar a Phillip Morris, vou processar a Pan!)

Os nada corretos Cigarrinhos de Chocolate!

Reparem que, quando a Pan percebeu a gafe, mudou para "Rolinhos" de Chocolate!

Mas, voltando ao assunto das embalagens, não é só nelas que este tipo de demonstração se faz presente: dando continuidade ao slogan “Barbie, tudo o que você quer ser” – o símbolo da futilidade feminina, total ‘material girl’,  em um mundo cor-de-rosa, não devemos esquecer das campanhas publicitárias: quer vender?? Taca uma pelada no cartaz! Cerveja é um exemplo clássico! Poxa, eu gosto de cerveja! Diversas amigas minhas, também. Então por que eles não botam um gostosão no cartaz para a gente querer comprar? E a mulherada, ao invés de contestar este tipo de campanha, que continua nos tratando como ‘produto’, ainda tenta ficar igual as Barbies by Photoshop do cartaz! E, por outro lado, como não devem sofrer preconceitos as taxistas, caminhoneiras, motoristas de ônibus, pedreiras e tantas outras mulheres fazendo ‘trabalho de homem’ por aí, né?!

Ah, assim, sim! Não é a toa que a imagem foi encontrada no site www.casadaeducacao.com.br!

Creio que as pessoas nem percebem mais o quanto ela são, dia após dia, sutilmente – ou nem tanto – manipuladas por uma mídia vazia e cruel que define padrões e estereótipos baseados no que quer vender.

Isto sem citar a religião, que impõe um ’deus’ que é o ‘pai’- ou seja, o dito ser supremo do Universo é homem! A mulher, então, já nasce segunda escolha?! Alguém acha que é mera coincidência que todo mundo sempre tem um ‘medinho’ a mais do pai do que da mãe? Aí já está nossa primeira quebra de autoridade!

Vamos mesmo continuar aceitando esta imposição de “o que se vai ser”, de “como se vai ser”, de “igual a quem se quer ser”, de esticar a cara para não mostrar que envelheceu como se tivesse algo de anormal nisso??

Todos e, principalmente, nós, mulheres, devemos começar a contestar todo este tipo de manipulação silenciosa! NÃO COMPRE, NÃO CONSUMA produtos com embalagens ou campanhas sexistas! Ou pelo menos, se for consumi-los, ligue para o SAC  ou entre no site e mande um e-mail informando que REPUDIA a atitude da empresa, explique o porquê e peça para que mudem!

Não esqueça que o mercado não existe sem o consumidor! No final das contas, somos nós os alimentadores dessa grande máquina, portanto temos a capacidade de moldá-la!

Merecemos viver mais livres, mais felizes e sem tantos rótulos! Até por que, creio que as próprias menininhas do terceiro milênio, era da Internet, já não vêem assim TANTA graça em brincar de boneca!

Olhem o vídeo aí e, depois, comentem!

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